

















A Casa Baruk marca um momento de expansão da rede Baruk e, para traduzir essa nova fase em espaço, o projeto de arquitetura e interiores foi confiado ao Memola Estúdio. Mais do que uma nova unidade, o restaurante foi pensado como uma espécie de casa-mãe: um espaço com alma própria, capaz de reunir a essência, a memória e parte importante da operação do grupo.
A proposta partiu do desafio de criar uma experiência genuinamente ligada à cultura árabe, sem recorrer a soluções decorativas ou literais. A pesquisa do estúdio voltou-se à presença histórica de elementos de origem árabe na arquitetura brasileira — como muxarabis, rótulas, gelosias, pátios internos, sombras filtradas e azulejos —, compreendidos como estratégias de luz, ventilação, privacidade e convívio.
O restaurante ocupa um novo volume construído na Rua Mato Grosso, em Higienópolis, após estudos que consideraram a preservação de dois imóveis vizinhos, antes ocupados por um consultório odontológico e um café. As demandas técnicas, operacionais e espaciais levaram à demolição criteriosa das edificações e à adoção de uma estrutura metálica capaz de vencer grandes vãos, liberar o salão de apoios centrais e organizar o programa em três pavimentos.
No térreo, concentram-se o salão principal, a cozinha, áreas de apoio e acessos de serviço, incluindo circulação específica para delivery. O primeiro pavimento abriga o mezanino, iluminado pela luz natural que atravessa a cobertura em sheds, além de setores operacionais. No segundo pavimento, escritório, sala de reunião e estoque se organizam de forma independente, separando as atividades administrativas dos espaços de atendimento.
A fachada sintetiza a abordagem do projeto. Na porção superior, a paginação dos tijolos cria uma pele vazada que reinterpreta os muxarabis a partir de uma leitura artesanal e contemporânea. Esse filtro em barro atua como camada de transição entre interior e exterior: protege, revela, filtra a luz, favorece o conforto térmico e permite uma visão fragmentada do entorno. Na parte inferior, caixilhos de serralheria azul, desenhados especialmente para o restaurante, alternam vidros incolores e texturizados, criando uma relação mais direta com a rua.
No interior, o salão principal se organiza em dois ambientes: um mais amplo, de pé-direito duplo e intensa entrada de luz natural, e outro mais reservado, sob o mezanino. Pisos e paredes recebem composições cerâmicas em tons de terracota, verde, creme, branco e azul, criando grafismos geométricos que evocam a tradição das azulejarias e dos pátios mediterrâneos em linguagem contemporânea.
O azulejo surge como elemento central dessa narrativa. A palavra tem origem no árabe al-zulayj, associada à ideia de “pequena pedra”, e foi compreendida pelo estúdio não apenas como revestimento, mas como memória material. Já o azul entrou no projeto por uma camada mais afetiva, ligada à construção simbólica do personagem Baruk — imaginado, em diálogo com os sócios, como alguém que vestiria sempre uma calça jeans.
A paginação do piso foi desenvolvida como ferramenta de organização espacial. No salão de pé-direito duplo, cria uma espécie de grande tapete cerâmico, conduzindo o percurso e reforçando a presença do bar. No salão posterior, a mudança de escala e ritmo cria uma atmosfera mais íntima. Mais do que ornamentais, os grafismos estruturam o projeto e dão continuidade à pesquisa sobre geometria, matéria e tradição.
Posicionado no centro do salão, o bar funciona como o coração do restaurante. Com circulação pelos quatro lados, atua como uma ilha social, conectando ambientes, organizando fluxos e criando uma presença marcante logo na entrada. Com vértices arredondados, base revestida em azulejos, detalhes em latão, marcenaria boleada e iluminação indireta, o bar articula permanência e movimento. Acima, uma cristaleira em serralheria azul desenha um pórtico que dialoga com os elementos metálicos da fachada.
A atenção aos detalhes, característica do Memola Estúdio, aparece na modulação dos blocos, na paginação dos ladrilhos, nos arremates e na integração entre estrutura, materiais e mobiliário. Cadeiras em madeira, mesas de mármore branco Paraná e bases em ferro pintado compõem diferentes configurações de uso, enquanto sofás contínuos, com base em alvenaria revestida de cerâmica verde e estofados em couro caramelo, reforçam a atmosfera acolhedora.
A iluminação também integra a narrativa do projeto. Durante o dia, a luz natural que entra pela fachada e pelas claraboias valoriza os materiais e amplia a percepção espacial. À noite, torna-se mais baixa e envolvente. Em vez de recorrer a luminárias árabes tradicionais, o estúdio desenvolveu pendentes próprios em tecido, que dialogam com o universo árabe pela ideia de sombra, filtro, movimento e atmosfera.
Na infraestrutura, conduítes, tubulações e elementos elétricos foram mantidos aparentes de forma consciente, integrando-se à leitura arquitetônica. Essa decisão revela as camadas técnicas da casa e equilibra uma estética mais construtiva com a materialidade artesanal, o brilho das cerâmicas, o calor da madeira e a suavidade da iluminação.
Com cerca de 700 m² e capacidade aproximada para 130 lugares entre térreo e mezanino, a Casa Baruk consolida arquitetura, cultura e gastronomia em uma experiência única. Entre narrativa, memória e execução precisa, o projeto traduz heranças históricas em linguagem contemporânea, evidenciando o rigor construtivo, a pesquisa material e o cuidado artesanal que marcam a atuação do Memola Estúdio.
Higienópolis, São Paulo, SP
LOCALIZAÇÃO
2025
ANO DE PROJETO
700m²
ÁREA
Veronica Molina, Bianca Sinisgalli, Juliana Jacobovitz e Carol Ribeiro
EQUIPE
CYMZ - Construções
EXECUÇÃO DA OBRA
Leila Viegas
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