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Localizada em um condomínio no Jardim Europa, a residência recebeu uma intervenção de arquitetura de interiores voltada a acolher novas rotinas, amadurecer com o tempo e refletir a identidade de quem a habita.
Com 450 m² distribuídos em quatro pavimentos, a casa foi pensada como um organismo em transformação: um lugar capaz de acolher novas rotinas, amadurecer com o tempo e refletir a identidade de quem a habita. O projeto teve início em um momento significativo para a família, quando o casal começava a construir uma vida em comum e a chegada da primeira filha acontecia em paralelo ao processo projetual.
A intervenção preserva a configuração arquitetônica original enquanto acrescenta novas camadas de memória, uso e expressão pessoal. Essa ideia de sobreposição orienta o projeto e se aproxima do pensamento de Friedensreich Hundertwasser, para quem a casa funciona como uma das “peles” do ser humano — extensão do corpo, da identidade e da vida cotidiana.
Na Casa Cinco, essa noção é reinterpretada de forma contemporânea nos interiores, onde afeto, rotina e atmosfera conduzem as decisões. Referências aos interiores tradicionais parisienses aparecem sem literalidade, em molduras, rodatetos, portas sob medida, forros de madeira pintados, pisos gráficos e detalhes de marcenaria, combinando sofisticação europeia, materialidade acolhedora e design brasileiro.
O núcleo de circulação vertical é um dos elementos centrais do projeto. A escada, que conecta todos os pavimentos, foi redesenhada para assumir protagonismo. Sua estrutura foi reforçada, os degraus foram uniformizados e o guarda-corpo em serralheria recebeu desenho exclusivo do estúdio, com traço geométrico e influência art déco. O piso de madeira em espinha de peixe percorre salas, circulações e pavimentos superiores, criando continuidade visual. Nas paredes, painéis de madeira com molduras reinterpretam os boiseries tradicionais em linguagem contemporânea, enquanto portas de acesso ao lavabo, à louçaria e à cozinha se mimetizam no conjunto.
No térreo, concentram-se os ambientes sociais e de serviço, todos voltados para o pátio ajardinado. Para ampliar a área útil e reforçar a relação entre interior e exterior, a antiga varanda foi incorporada ao living a partir do reposicionamento dos caixilhos até o limite do beiral. O pé-direito foi preservado sempre que possível, com rebaixamentos pontuais apenas onde havia necessidade técnica.
A iluminação e a infraestrutura elétrica permanecem aparentes, mas tratadas como parte da linguagem do projeto. Tubulações e conduítes foram destacados da laje e das paredes, suspensos por cabos de aço, criando a sensação de que a técnica flutua no espaço. Mais do que solução funcional, o gesto revela uma camada normalmente oculta da casa, transformando infraestrutura em desenho, textura e expressão.
A paleta de tons terrosos percorre todo o projeto. Paredes em tom de areia, forros de madeira pintados, barrados sutis e variações cromáticas delicadas criam unidade entre os ambientes. Na sala de estar, o layout aberto organiza diferentes usos em torno de um sofá em ilha, que articula estar e home theater. Peças do design moderno brasileiro convivem com mobiliário contemporâneo e objetos do acervo familiar, compondo uma atmosfera sofisticada, afetiva e habitada.
A Casa Cinco se configura, assim, como um projeto construído a partir do tempo, da escuta e de decisões arquitetônicas precisas. Ao articular memória, técnica, interiores e cotidiano, o Memola Estúdio cria uma casa que não apenas abriga uma família, mas acompanha seus movimentos, suas transformações e sua forma particular de habitar.
Jardim Europa, São Paulo, SP
LOCALIZAÇÃO
2025
ANO DE PROJETO
490m²
ÁREA
Veronica Molina, Amanda Sarak e Giovana Almice
EQUIPE
Atiossi Engenharia
EXECUÇÃO DA OBRA
Leila Viegas
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